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“Amor e Orgasmo" de Alexander Lowen

  • Foto do escritor: Thais Garcia
    Thais Garcia
  • 25 de jul. de 2018
  • 8 min de leitura

Ainda vivemos em uma sociedade cercada de tabus, preconceitos, mitos e castrações sexuais. O assunto, apesar de bastante abordado nos dias de hoje, ainda é um tema confuso e problemático para muitas pessoas na hora da intimidade. Embora tenhamos avançado no terreno sexual, e a psicanálise tenha fornecido esclarecimentos para muitas indagações, pouco se realizou quanto a solução das questões. A ansiedade perante o ato, o medo da impotência, a preocupação quanto ao orgasmo e o receio da masturbação, ainda que questões básicas, continuam sendo conflitos existentes na vida sexual da esmagadora maioria da população.


Porém, a insatisfação é assunto velado, guardado a sete chaves. Poucos ousam discorrer sobre suas reais aflições. O sexo ainda está baseado na ignorância e desinformação. As literaturas, os debates, abordam o tema como um manual de instruções, um tutorial de “como fazer”, “como executar”. A plena satisfação fica, então, moldada por regras e padrões.


Em seu livro, Amor e Orgasmo, Alexander Lowen diz que o comportamento sexual de um indivíduo não pode ser dissociado de sua personalidade. “O comportamento sexual de uma pessoa reflete a sua personalidade, da mesma forma que sua personalidade é a manifestação das suas vivências sexuais”. Por este motivo, as realizações afetivas, emocionais e sexuais não podem ser alcançadas através de práticas estabelecidas. Lowen defende a sexualidade como uma expressão emocional do ser.


O psicanalista classifica os indivíduos “imaturos” sexualmente como “sofisticados sexuais”. São aqueles que consideram o ato mais um desempenho do que uma expressão. Esta pessoa está desconectada dos seus sentimentos e dos de seu parceiro. Para ele, o ato se torna apenas uma vitória para o ego.


A pessoa sofisticada domina a arte das posições, dos maneios e floreios das técnicas, porém tem um entendimento superficial das emoções. Não tem total compreensão de seu corpo, nem de seus sentimentos. O indivíduo considera o sexo e o amor como coisas distintas e separadas.


O homem tem a preocupação de não conseguir a ereção, perder a capacidade ou padecer de ejaculação precoce. A mulher, preocupa-se em não atingir o orgasmo.

A pessoa sexualmente sofisticada encobre suas ansiedades, suas hostilidades e sua culpa, traduzindo tais sentimentos no medo do fracasso. Torna-se, portanto, necessário desmascarar o “performer” e expor seu medo mais profundo. Apenas quando estiver em contato com seu corpo e seus sentimentos, alcançará, com tranquilidade, a verdadeira satisfação no amor sexual.


Vejamos um exemplo bastante comum. Muitas mulheres fingem o orgasmo e, como justificativa, dizem que estariam ferindo o orgulho do parceiro se ele soubesse que não a satisfez plenamente. Muitas vezes a insegurança é o motivo para tal atitude. Para Lowen, “satisfação não é algo que se possa dar a uma outra pessoa. Depende da capacidade que ela tem de se entregar completamente à experiência sexual, o que escapa a pessoa cuja a atividade sexual é um desempenho. Nenhum homem consegue satisfazer uma mulher ou dar-lhe orgasmos. Ele pode criar condições que possibilitem a autosatisfação, mas o resto é por conta dela” (LOWEN, 1988, p. 140). Para o homem, sua necessidade de satisfazer a mulher está relacionada a sua preocupação com sua potência. As dúvidas quando ao seu desempenho o tornam vulnerável à resposta da mulher. Ele inibe sua própria excitação em detrimento de sua parceira. Sacrifica seu prazer para manter a imagem de potência. Por fim, nenhum dos dois estão realmente e profundamente satisfeitos, apenas seguem o jogo para manter a união.


A preocupação do homem quanto a precocidade da ejaculação é de certa forma irreal, já que não existe tempo determinado para o ato. A ejaculação é precoce quando acontece antes que se tenha alcançado o pico máximo da excitação. “Administrar o momento da ejaculação pela resposta da mulher destrói o fluxo natural de sensações que é a única garantia de uma satisfação mútua” (LOWEN, 1988, p. 141).


Na “era sofisticada”, em que homens e mulheres têm no ato sexual um desempenho para impressionar, os valores do ego são mais importantes que a sua própria satisfação. Se tiver levado o parceiro ao clímax, independentemente de sua própria experiência, considera-se com bom desempenho.


A dissociação das emoções, descrita por Lowen, perante o sexo é condicionada por todas as perturbações emocionais do indivíduo vindas desde a infância. A pessoa perde sua identidade corporal e o respeito por sua natureza sexual devido à falta de afirmações vindas desde as fases iniciais de vida. O bebê tem suas primeiras fontes de prazer no contato com o corpo da mãe. Se este contato for limitado, perderá sua fonte de prazer e, ao invés disso, terá seu corpo como fonte de dor. “É doloroso ansiar desesperadamente por contato e proximidade quando estes não acontecem. É doloroso chorar por uma mãe que não responde. Se a dor ficar grande demais, a criança se amortiza para a mesma, rompendo o contato com suas sensações corporais… Mais tarde, na vida adulta, evitará toda a excitação corporal porque ela pode, sem dúvida, evocar a sensação de dor reprimida” (LOWEN, 1988, p. 148).


Violar de alguma forma o corpo ou as sensações da criança, não levar em consideração seus medos, não responder aos seus choros e pedidos, mostra a falta de respeito a ela como um ser sensível, enfraquecendo sua fé de ser uma pessoa importante querida e amada.


“A primeira fixação do desenvolvimento psicossexual da criança no nível oral, devido à falta de gratificação de suas necessidades infantis. A segunda é a proibição imposta pelos pais sobre a manifestação de sensações sexuais, quando a criança é muito pequena, tanto na forma de atividades auto-eróticas quanto na de jogos corporais e de contato com os pais. As necessidades orais infantis incluem as necessidades de contato corporal, de alimento, de afeto, de cuidado. As primeiras duas dessas necessidades são satisfeitas plenamente, a nível ideal, pela função da amamentação ao seio. A relação entre a boca e o mamilo é o protótipo da futura relação genital entre pênis e vagina. Na amamentação, a criança manifesta seu amor pela mãe com o desejo de proximidade física e união entre boca e seio, que faz os dois uma pessoa só. O amor da mãe se expressa em sua resposta às necessidades da criança. Da mesma forma como o relacionamento boca-seio cria o molde para a função genital ulterior, também a qualidade do amor que a criança sente em sua proximidade com a mãe determina a forma de suas respostas amorosas quando for adulta” (LOWEN, 1988, p.).


Desta forma, para falar sobre o sexo é necessário discutir também o relacionamento do indivíduo consigo, com o amor, com seus sentimentos e com sua capacidade de entrega. Para que a pessoa sinta o amor, é imprescindível que ele tenha sido demonstrado, que a criança tenha vivenciado este sentimento em suas fases iniciais de vida. Uma criança que nunca recebeu amor de seus pais, ou que teve uma criação rígida onde o afeto, o toque e o contato não aconteceram, fica impossibilitada de reproduzir o mesmo quando adulta. O carinho, o contato físico entre os pais e o bebê são elementos fundamentais para o desenvolvimento de um indivíduo aberto e seguro para dar e receber afeto.


Uma pessoa não preenchida, com sintomas de vazio emocional, são características de uma criança que sofreu as privações nas fases iniciais. Quando adulta, continua necessitando de cuidados. Dependerá do outro para amar e ser amada. “Se uma pessoa depende da outra, irá definir seu sentimento como amor. Dirá “eu o amo”, quando na verdade quer dizer “preciso de você”. Precisar e amar não são a mesma coisa. Necessitar denota falta; amor é preenchimento” (LOWEN, 1988, p. 163).


Lowen explica que o sexo é a expressão do amor. Por isso não há como serem sentimentos e sensações separadas. Dissociar sexo e amor é uma atitude da sociedade neurótica, com entendimentos superficiais das emoções.


O amor cria a necessidade de fusão com o objeto de desejo, esta necessidade cria uma tensão que só pode ser liberada através do ato sexual e do orgasmo. Lowen cita Reich ao descrever que a potência orgástica é a liberação da energia sexual reprimida através de agradáveis convulsões do corpo, livre de quaisquer inibições ao fluxo de energia.


Após a descarga de um orgasmo completo, o ego ficaria totalmente extinto, a pessoa estaria entregue e a sensação de uma “pequena morte” tomaria conta do indivíduo. “A anulação do ego durante o orgasmo pode ser igualada à morte se a personalidade for igualada ao ego. Brophy considera o orgasmo como uma castração temporária, uma pequena morte (LOWEN, 1986, p.58).

Porém, quando não há perspectiva de alívio completo para o estado de tensão ou excitação, tem-se a frustração. A excitação só é de fato satisfatória quando consegue antecipar a descarga.


Cabe ressaltar que a estrutura corporal é um importante instrumento para compreendermos as perturbações da personalidade e, também, a disfunção sexual. “A repressão de um sentimento ou sensação, ou a inibição de um ato, está sempre associada a determinadas mudanças corporais que distorcem a forma e a motilidade do corpo de modo característico”. Também modela a forma do indivíduo se expressar no mundo. As dificuldades sexuais estão vinculadas com as tensões musculares e enrijecimentos pélvicos.


“A idéia de que o coração é onde se localiza o amor está significativamente vinculada à questão da potência orgástica. Em todas as pessoas neuróticas, descobre-se que a parede torácica é extremamente tensa. Além disso, o diafragma fica contraído, a barriga está chupada para dentro e os ombros não relaxam. Literalmente, o coração está envolvido por uma couraça muscular que o protege, mas que também o isola das sensações da região genital. Esse “encouraçamento” explica por que as sensações sexuais são limitadas aos órgãos genitais e não se estendem ao corpo todo numa reação orgástica completa” (LOWEN, 1988, p.303).


O sexo depende da coordenação e dos movimentos corporais para ser prazeroso. Uma pessoa sexualmente madura é solta, amorosa e alegre. Demonstra prazer e satisfação pela vida. Sua personalidade é cheia de energia. E na sexualidade, apresenta as mesmas qualidades. Já uma pessoa sexualmente frustrada apresenta-se amarga, pois não desfruta da doçura do amor. Uma pessoa rígida é também mecânica quanto a sua personalidade. E, uma pessoa com um comportamento que tem por finalidade impressionar, irá transparecer na sua função sexual a mesma necessidade.


Lowen refere-se como a “verdade do corpo”, a consciência dos movimentos, impulsos, limitações do indivíduo. Se a pessoa não sente suas tensões, sua rigidez e suas ansiedades, ela está negando a verdade de seu corpo. Essa negação acontece no nível inconsciente como perda de percepção do estado corporal. Em suma, a sexualidade exige a maturidade do corpo e da mente.


O indivíduo que não consegue atravessar suas camadas de sentimentos reprimidos, não entra em contato com o centro de seu ser onde estão o amor e a sexualidade. Este, estará limitado a uma fraca descarga orgástica e a uma abordagem sensual da vida.


Diante de falta da descarga, a pessoa toma uma atitude compulsiva em relação a vida, ao sexo, ao trabalho, ao lazer. “A alegria de viver, cuja a expressão máxima está no orgasmo sexual, lhe escapa” (LOWEN, 1988, p. 300).


Por isso, para Lowen, a maturidade sexual não é um objeto, mas um modo de viver. A pessoa sexualmente madura tem a coragem de enfrentar a verdade do seu corpo, e como consequência disso respeita seus sentimentos, sensações e a si mesma. Também respeita seu parceiro sexual, as pessoas em geral e o fenômeno da vida. Sua auto-aceitação engloba o que ela tem de comum a todos os seres humanos: vida, liberdade e impulso sexual. A pessoa que se odeia, odeia seu corpo e o corpo das demais. Quando afirma seu direito à felicidade sexual, a pessoa madura concede aos outros o mesmo direito. Tem o que o analista considera de “coração aberto”. Uma vez que o coração está aberto e não fechado, a pessoa sexualmente madura se dá plenamente àqueles que ama. Por sua vez, a pessoa de coração aberto é respeitada, pois é alguém íntegro e genuíno em suas atividades; preenchido e satisfeito pelos resultados do seu trabalho. Enfim, uma pessoa madura sexualmente está identificada com sua própria personalidade.





 
 
 

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