Compulsão sexual e o medo entrega
- Thais Garcia
- 20 de jul. de 2018
- 11 min de leitura
Atualizado: 25 de jul. de 2018
De Thais Garcia e Cristiane Garbini

Em suas teorias sobre a estrutura de caráter, Wilhelm Reich aborda a má circulação das cargas energéticas. Para ele, um indivíduo sadio é aquele que alcançou sua maturidade de “caráter genital”, ou seja, sua carga energética circula livremente pelo corpo, sem obstáculos. Essa pessoa é a que chamaríamos de indivíduo “normal”, apto a se desenvolver e a se manifestar no mundo livremente e de acordo com suas escolhas, ambições e motivações. Ao contrário disso, se houverem descompensações na circulação dessas cargas energéticas, temos as psicopatologias: uma redução da expressão vital do indivíduo. Em geral, o indivíduo que apresenta tal estrutura, é chamado de neurótico.
É importante levar em consideração que o ambiente familiar e cultural são fatores determinantes nesta formação de caráter. Na sociedade que vivemos, o que é considerado normal é determinado por padrões culturais impostos o que não contribui para a formação do indivíduo sadio. As castrações, as frustrações e os momentos de stress nas primeiras fases de vida, ocasionam os bloqueios energéticos e, então, o caráter neurótico.
Os padrões impostos bloqueiam o impulso intrínseco do indivíduo, que, com o tempo, cria o que Reich chama de couraça muscular: uma redução já internalizada e, por isso inconsciente, da expressão vital.
Alexander Lowen define a neurose como um “medo da vida”. O neurótico reprime seus impulsos e sentimentos porque amedronta-se. O mecanismo de supressão desenvolve tensões musculares crônicas, que bloqueiam os movimentos que iriam expressar os sentimentos. Por exemplo, uma pessoa não abre seu coração para amar pelo medo da rejeição. Os bloqueios criados na infância, fazem parte da forma de viver do adulto.
“Acreditamos que é ruim ou perigoso sermos levados de roldão por nossas emoções. Admiramos a pessoa fria, capaz de agir sem sentimentos. A ênfase de nossa cultura recai sobre o fazer, sobre o atingir resultados. O indivíduo de nosso tempo está comprometido com seu sucesso, não em ser uma pessoa. Justificadamente, pertence à "geração da ação" cujo lema é: faça mais, sinta menos. Esta atitude caracteriza grande parte da moderna sexualidade: mais atuação, menos paixão”. (LOWEN, 1986, p. 12).
O neurótico tem medo de “ser”, pois ir em busca de suas satisfações emocionais é também acessar e encarar as dores e frustrações de sua infância. Para Lowen o seu medo de viver é tão grande quanto o seu medo de morrer. Se ele for em busca de seus anseios, corre o risco de sofrer, novamente, uma frustração que, para ele, será tão intensa quanto a morte. Em suma, o amortecimento dos sentimentos que na infância o salvou, acaba determinando seu destino.
"Encontrei esse desejo de morrer em todos os pacientes que tratei. Em alguns deles, apresenta-se fraco, mas em outros é forte. Sua força é diretamente proporcional ao grau de medo que a pessoa sente para viver. A inibição da vida é a morte. Toda a tensão crônica do corpo é um medo da vida, um medo de soltar, um medo de ser. Pode ser interpretada como um desejo de morrer” (LOWEN, 1986, p. 116).
Alexander Lowen, afirma que sentimo-nos incapazes de sermos amados, de sermos desagradáveis. Temos receio de expressar ativamente o amor, tememos pedir ou exigir respeito. Receando uma resposta hostil das pessoas, não permitimos declarações assertivas e assumidas. Mantemos sob vigilância nossa agressividade natural. Retraímo-nos perante a afirmação do nosso ser. Pode ser que nos tornemos contrafóbicos e exageradamente agressivos para ocultarmos nossos medos. No estado retraído, o corpo fica contraído e encolhido, para dentro. No estado compensatório, fica duro e tenso. Ambas posições são defensivas e conduzem ao medo.
Ter sensações intensas se torna uma ameaça, pois a pessoa não está habituada com tal sentimento. Sensações de maior intensidade são percebidas como perigo, porque ameaçam inundar o ego, ultrapassar limites e liquidar a identidade. De fato, é assustador sentir mais vitalidade e ter sensações intensas, nunca antes sentidas. No livro Medo da Vida, Lowen aborda um exemplo bastante comum:
“Se, por exemplo, uma pessoa quer suprimir um impulso de chorar porque tem vergonha de chorar, tensionará os músculos da garganta para impedir que os soluços sejam expressos. Poderíamos dizer que o impulso foi sufocado ou que a pessoa engoliu as lágrimas. Neste caso, a pessoa tem consciência do sentimento de tristeza ou vontade de chorar. Contudo, o não chorar tornar-se parte do modo de ser da pessoa, quer dizer, parte do seu caráter, então as tensões nos músculos da garganta ganham uma qualidade crônica e passam para o nível da inconsciência. Uma pessoa dessas pode vangloriar-se de que não chora quando é magoada, mas o fato é que não conseguiria chorar mesmo se desejasse, porque a inibição tornou-se estruturada no seu corpo e está agora fora do controle consciente”. (LOWEN, 1986, p. 39).
Reich e Lowen vão além e ressaltam que a personalidade encouraçada de um indivíduo é, também, a manifestação de suas vivências sexuais. “O comportamento sexual de uma
pessoa reflete sua personalidade, da mesma forma como a personalidade de uma pessoa é a manifestação de suas vivências sexuais”. Porém, antes de adentrarmos este assunto, é importante considerar o conceito, definido por Reich, para o orgasmo.
Em seus estudos, o pesquisador considerou como potência orgástica “a capacidade de abandonar-se, livre de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo”.
O seguinte gráfico expressa a potência orgástica. Quanto mais sadio for o indivíduo, ou seja, quanto mais ele se aproximar do caráter genital, maior seria a queda após o pico máximo de sua excitação.
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“Por isso, o clímax representa o ponto decisivo no seguimento da excitação; isto é, antes do clímax, a direção da excitação é para o genital; após o clímax , a excitação reflui do genital. Essa completa volta da excitação do genital para o corpo é que constitui a satisfação. Isto significa duas coisas: refluir da excitação para o corpo inteiro e relaxação do aparelho genital“ (REICH, 1975, p. 58).
Consideramos que, nas fases do ato sexual, o prazer tem dupla natureza. O primeiro prazer, antecipatório, está associado ao acúmulo de excitação. O segundo prazer é percebido como satisfação e está relacionado à descarga da excitação. Visto por este ângulo, o prazer não é uma experiência de um estado estático, mas sim dinâmico. O prazer não pode ser dissociado do movimento, seja físico, seja psicológico. O movimento é básico ao funcionamento do organismo vivo. A excitação e o movimento são fenômenos energéticos.
Devido a couraça muscular, resultado das sucessivas castrações, os indivíduos neuróticos possuem a musculatura genital tensa. Prova disso é a dificuldade que uma pessoa tem de movimentar somente a pélvis. Geralmente o neurótico move também parte das coxas e abdômen. Essa tensão, bloqueia o fluxo do orgasmo e impede o indivíduo de alcançar a descarga máxima. Como o reflexo do orgasmo ocorre por uma onda de excitação que percorre o corpo inteiro, se esta onda encontra-se bloqueada em algum ponto, o reflexo é interrompido, causando uma queda na potência do orgástica.
Por isso, para Reich, uma pessoa sexualmente satisfeita não pode ser neurótica. Dado que o orgasmo tem a função de descarregar o excesso de energia, que mantém o sintoma neurótico. Em tese, a potência orgástica seria a solução da neurose.
“Toda pessoa neurótica apresenta algum distúrbio em sua resposta orgástica, não tendo condições de entregar-se por inteiro às agradáveis e involuntárias convulsões do orgasmo. Essa pessoa estaria com o medo da sensação avassaladora do orgasmo total” (LOWEN, 1986, p. 15).
Em estudos com seus pacientes, Reich concluiu que todos teriam perturbações na função genital. Descreveu a função genital como “seriamente perturbada”. E acrescentou que “os mais perturbados de todos eram os homens que gostavam de alardear e exibir sua masculinidade. Homens que possuíam tantas mulheres fosse possível, e que podiam fazê-lo muitas vezes em uma noite”. Evidenciou também que, embora esses homens fossem “eretivamente potentes”, experimentavam um prazer muito pequeno no momento da ejaculação.
“A análise precisa das fantasias que acompanhavam o ato sexual revelou que os homens habitualmente tinham atitudes sádicas ou vaidosas, e que as mulheres sentiam medo e inibição, ou se imaginavam como homens. Para o homem ostensivamente potente a relação sexual significa penetrar, dominar ou conquistar a mulher. Quer apenas provar a sua potência, ou ser admirado pela sua resistência eretiva” (REICH, 1975, p. 54).
Então, se temos os encouraçamentos do corpo como uma consequência do medo da intensidade das emoções, a impotência orgástica também é resultado de tal sentimento. Entregar-se por completo ao ato sexual, experimentar o clímax em sua totalidade, é uma experiência que, inconscientemente, perturba intensamente o neurótico.
“A saúde psíquica depende da potência orgástica e do ponto até o qual o indivíduo pode entregar-se, e pode experimentar o clímax da excitação no ato sexual natural. Baseia-se na atitude não neurótica da capacidade do indivíduo para o amor. As enfermidades psíquicas são o resultado de uma perturbação da capacidade natural de amar. No caso da impotência orgástica, de que sofre a esmagadora maioria, ocorre um bloqueio na energia biológica, e esse bloqueio se torna a fonte de ações irracionais. A condição essencial para curar tais perturbações é o restabelecimento da capacidade natural de amar” (REICH, 1975, p. 10).
Nesse contexto, sexo e morte estão inteiramente interligados. Isso porque, após a descarga de um orgasmo completo, o ego estaria totalmente extinto, o indivíduo estaria totalmente entregue, e a sensação de uma “pequena morte” tomaria conta do seu ser. Este medo da dissolução do ego é o que avassala e impede o neurótico de atingir o clímax.
“A maioria de nós não sente o medo de morrer quando se aproxima do orgasmo total porque inconscientemente refrearmos a descarga, só lhe permitindo ser parcial. Sendo assim não morremos, mas tampouco renascemos. A descarga orgástica plena é bloqueada por meio de tensões na pelve” (LOWEN, 1986, p.119).
Sofisticação sexual e maturidade sexual
Dentre os indivíduos neuróticos, ainda podemos distinguir dois grupos: os sofisticados sexuais e os maduros sexuais.
Segundo Lowen, o indivíduo sexualmente sofisticado considera o ato sexual um desempenho. Não está intimamente ligado aos sentimentos do parceiro, pois sua preocupação está relacionada a performance do ato e a execução da relação sexual. Para ele o ato é uma vitória para o ego. “A ênfase nos valores egóicos em relação à sexualidade serve para racionalizar as inadequações sexuais e para eliminar a consciência da culpa sexual. A culpa reprimida pode ser nitidamente constatada nos sentimentos relativos à masturbação” (LOWEN, 1986, p. 12).
A pessoa sofisticada domina a arte das posições, dos meneios e floreios da técnica sexual, porém tem um entendimento superficial das emoções. Não tem total compreensão de seu corpo, seus sentimentos e emoções. O indivíduo considera o sexo e o amor como dois sentimentos distintos e separados. Para o homem, a preocupação está em não conseguir a ereção, perder a capacidade ou padecer de ejaculação precoce. A mulher tem a preocupação de não atingir o orgasmo.
A pessoa sexualmente sofisticada encobre suas ansiedade, suas hostilidades e sua culpa, traduzindo tais sentimentos no medo do fracasso. Torna-se, portanto, necessário desmascarar o “performer” e expor seu medo do fracasso como a racionalização sofisticada e seus verdadeiros temores.
Em contraponto, o indivíduo sexualmente maduro não está esmagado pelo peso da culpa sexual. Não é “performer”, nem “farsante”. Seu comportamento sexual é uma expressão direta dos seus sentimentos e suas vivências. Uma manifestação dos sentimentos pelo parceiro. Tem consciência de seu corpo e sabe que não será em todas as relações que se realizará sexualmente. Contudo, as satisfações que efetivamente obtém são suas porque sua maturidade representa um compromisso realista e genuíno com o amor e a vida.
A compulsão sexual e o medo da entrega
Tendo em vista os estudos de Reich e Lowen sobre a potência orgástica, evidenciamos que um indivíduo neurótico não é sexualmente satisfeito. Isso porque, em um orgasmo sexual completo, da forma descrita por Reich, a pessoa deve descarregar todo o excesso de energia, que a mantinha como um ser neurótico. Ou seja, a potência orgástica se tornaria a solução da neurose. A convulsão bioenergética involuntária do organismo e a completa solução da excitação são as características mais importantes da potência orgástica, para que ela seja experimentada em sua totalidade e intensidade. No orgasmo, o amor e o sexo se unem na mais poderosa expressão física de tais sentimentos.
As couraças e bloqueios instalados a partir do medo, criam uma “camada” de sentimentos negativos reprimidos e que oculta os sentimentos de amor e de sexualidade mais profundos. “A pessoa não consegue entrar em contato com o centro do seu ser, onde estão localizados o amor e a sexualidade. Está limitada à superfície e a uma abordagem sensual da vida. Qualquer tentativa de atravessar a barricada defensiva em direção a esse centro do ser ameaça a mobilizar esses poderosos e negativos sentimentos reprimidos, bem como a ansiedade e o medo” (LOWEN, 1988, p. 176)
Esse ser neurótico tem um profundo medo da entrega. Uma descarga orgástica desmancharia seu ego, invadiria as camadas mais profundas e o individuo estaria totalmente entregue. Acessaria suas melhores, mas também as piores das sensações. O neurótico não suporta tal intensidade. Segundo Lowen, o medo de ter um colapso é mais acentuado quando é desafiada a estrutura do caráter do paciente. Isto acontece porque a estrutura desenvolveu-se como defesa contra colapsos. A resistência que o paciente opõe é insuperável, ao menos que se compreenda o medo que a motiva. Devemos saber que, subjacente ao medo de entregar-se, existe o medo da insanidade. Todo o paciente “teme ficar louco”, se “se entregar” completamente às suas sensações e sentimentos.
Existe um relacionamento dinâmico entre morte e insanidade, entre morte física e morte psíquica. Se um organismo for avassalado por uma intensa energia, os limites do si-mesmo serão inundados e se dissolverão. Sem limites, o si-mesmo não existe. A insanidade pode ser chamada de uma forma de morte psíquica, a morte de si mesmo e a morte do ego. Isto acontece no ponto culminante do orgasmo. Porém, quanto maior o medo, maior a supressão.
Vale ressaltar que a falta da saciedade através de um orgasmo completo angústia o neurótico. O indivíduo entra em uma constante busca para suprir algo que sente faltar em sí. E, isso, traz a compulsão sexual. Nesse círculo de busca e medo, nada é suficientemente satisfatório. Nessa compulsão, o ato sexual se torna um desempenho que aumenta ainda mais o risco de fracasso da saciedade.
Perante o medo, o impulso agressivo do neurótico para atingir as satisfações é fraco. Ele priva e sufoca suas necessidades. “A ausência do componente agressivo na personalidade força a pessoa a adotar o caminho sensual” (LOWEN, 1988, p.179). Essa pessoa rígida, é compulsiva em todos os aspectos de sua vida, e não poderia deixar de ser em suas relações. O exagero sexual é característico dos indivíduos cujas suas atividades e realizações sexuais fornecem uma satisfação egóica, mas nunca emocional ou física.
Dentre esses indivíduos, ainda podemos distinguir aqueles que têm maior ou menor realização no ato sexual, conforme a sua disponibilidade de entrega.
A sensualidade é uma das manifestações de uma função sexual comprometida. Normalmente, a sensualidade faz parte do processo sexual. A estimulação de todos os sentidos tem um papel importante na fase preliminar da excitação sexual. As atividades do prazer preparatório são de natureza predominantemente sensual. Mas a sensualidade pode se tornar oposta à sexualidade se a busca da excitação se tornar um fim em si. A pessoa sensual difere da pessoa sexual por ser menos interessada no prazer final da descarga e mais na exploração dos meios de criação da tensão e excitação.
As orgias sexuais são um caso extremo, são exercícios de sensualidade, e não experiências sexuais no sentido do termo. A função importante da descarga é relegada a uma posição secundária, e a experiência do prazer final é vazia, monótona, sem sentido. Seria mais preciso dizer que pouca ou nenhuma experiência orgástica pode existir nestas circunstâncias.
A pessoa sensual espera poder levar sua excitação a um nível suficientemente alto para que consiga sair de si mesma. Porém, desconsidera os sentimentos e sensações da interioridade do corpo, que são justamente as verdadeiras chaves da sexualidade. A sexualidade significativa envolve as vísceras, o coração e a mente. Mas são precisamente as áreas que a pessoa sensual isolou sua sensibilidade.
A pessoa com uma entrega profunda, consegue ter a coragem de enfrentar seu corpo e, como consequência disso, respeita seus sentimentos, sensações e a sí. Existe respeito pelo parceiro sexual, pelas pessoas e pelo fenômeno da vida, seja em que forma ele se manifeste. Sua auto-aceitação engloba aquilo que ela tem de comum com todos os seres humanos. Conforme Alexander Lowen, “a maturidade sexual não é um objeto e, sim, um modo de viver.” Em suma, a entrega profunda se torna o contraponto da compulsão sexual.
Por fim, como concluiu Reich, as pessoas que atingem uma entrega genital completa se livram da compulsão, e manifestam uma mudança radical de toda a personalidade. Atitudes compulsivas da vida, como diante do trabalho, das relações e do sexo, somem. Cessa a promiscuidade sexual, não em virtude de qualquer compulsão moral, mas por que este comportamento deixa de proporcionar a satisfação desejada. A pessoa que atinge tal funcionamento, atinge o caráter genital. Ela consegue atingir a habilidade de reunir de forma plena e profunda o “sexo e o amor”, e o “amor e o sexo”.



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